Às vezes sinto-me sozinho. Antigamente havia mais gente como eu: gordos, feios, que passam o dia inteiro ao computador a ver pornografia, e que só saem de casa para ir comprar porcarias para comer, ou revistas com artigos sobre Diablo e World of Warcraft. Agora sou só eu. As restantes pessoas da Blogosfera são magras, giras, e escrevem textos sobre moda, jogging, dietas, ginásios e sumos com consistência semelhante à de um pacote de Cerelac misturado com três colheres de sopa de água. E eu para aqui continuo, a embadochar, dia após dia. Estou uma bola. Estou muito gordo. Tão gordo que a minha respiração fica ofegante só do esforço de coçar os tomatinhos meia dúzia de vezes ao dia. E vocês aí, todos giros e elegantes, cheios de corridinhas e ginásios e suminhos. Como eu gostava de também poder gritar aos sete ventos que sou um pão heterossexual, apesar de fazer aulas de Zumba dois dias por semana, e de usar calças de licra para correr. Invejo-vos. Mas um dia isto vai acabar. Um dia vou deixar de me empanturrar em merda e vou ser delgadinho como vocês. Sim, um dia também hei-de ter o colesterol abaixo dos 400. E deixarei de beber cerveja da parte da manhã, e de enfardar pacotes de Pringles o dia inteiro. Um dia vou ser como vocês. Um dia. Aliás, eu gosto tanto de comer, que tenho pena que não tenham atirado com uma cabeça de leitão assado, ou uma travessa de cozido à portuguesa, ao Daniel Alves. É que eu não me contento com uma banana. Sabe-me a pouco. Bananinhas é para vocês, maltinha do ginásio, que bebem iogurtes para regular o trânsito intestinal porque não podem dar puns. Eu não. O meu trânsito intestinal bem pode parecer a segunda circular em hora de ponta, que eu vou-me estar a cagar. Para isso.